Alimentação: as tendências no setor de ‘foodservices’, segundo a Euromonitor

Marília Borges, analista de consultoria Euromonitor, falou sobre as tendências de serviços em alimentação (Crédito: divulgação)

Que todo mundo precisa comer todo dia, disso ninguém dúvida. Mas uma pergunta que quem pensa em empreender no ramo de alimentação faz é o que fazer para atender os pedidos dos clientes famintos. A analista da Euromonitor Marília Borges falou sobre as tendências do setor de food service [serviços em alimentação] no Fórum Gestão à Mesa, na última semana. A empresa de consultoria multinacional analisa dados de mai de 200 países. Entre as novidades, o crescimento dos cafés, mudanças no hábito de trabalhadores e consumidores escolhendo estabelecimentos de acordo com seus valores pessoais. A seguir, sua conversa com o Negócios à Parte:

A senhora mencionou como exemplo o crescimento, no mundo inteiro, de estabelecimentos do tipo “café”. Isso vale também para o Brasil, já que temos bastante hábito desse tipo de lugar aqui, como padarias? O que seriam esses “cafés”?
São lojas especializadas em café, players [empresas] do tipo Starbucks. A tendência de negócios como uma barraquinha que as pessoas montam perto do metrô, que servem bolo e café, por exemplo, a nossa pesquisa não capta, porque são negócios informais. Mas no caso das lojas, estamos falando de redes como Starbucks, de players independentes como o Coffee Lab, de gente com esse posicionamento.

E ainda tem espaço para mais desse tipo de loja?
É um canal que a gente vê que está crescendo. Uma das coisas que vem sustentando, ao longo do tempo, é essa “premiunização”. Que é essa valorização dos consumidores por produtos ou o menus em que eles conseguem enxergar qualidade diferenciada, e estão dispostos a pagar mais por aquilo. Isso também é uma tendência. A gente está vendo uma mudança de valores, a gente não acha que seja um modismo. As lojas especialistas, com certeza,vão surfar essa onda.

Muita gente pensa em abir um negócio de alimentação. A senhora disse que houve mudança no comportamento dos consumidores com a crise econômica. Como foi isso?
A crise contribui para revisitar os hábitos de consumo de refeições fora do lar. Especialmente porque se vê que o contingente de trabalhadores sem emprego cresceu muito ao longo dos últimos anos.
O vale-refeição, que é um benefício comumente concedido a trabalhadores em situação regular, é muito importante na hora de medir o tráfego dos restaurantes no meio do dia, por exemplo. Em função de mais trabalhadores desempregados, há menos trabalhadores com esse benefício.

Como isso pôde ser percebido no setor?
Menos trabalhadores estão indo a restaurantes na hora do almoço. Ou mesmo aqueles trabalhadores que continuam empregados se comportam como se estivessem na iminência de perder seus empregos, e não como empregados. Continua empregado, mas pensa “o orçamento está mais apertado”. Ou “eu não sei o que pode acontecer amanhã”. Então, leva a refeição para o trabalho e economiza o que pode no vale refeição. Esse tipo de mudanças não tem só a ver com quem escolhe sair à noite, de sair menos vezes e reproduzir dentro de casa experiências que se teria em bares e restaurantes, mas também na hora do almoço.

Esse orçamento mais restrito para alimentação vai ser a realidade por quanto tempo?
A tendência é de que, de forma bem vagarosa, conforme a gente saia da crise, os consumidores retomem seus níveis de renda. A indústria de serviços em alimentação [food services] é bem sensível a isso, se a gente pensar no mercado de trabalho. Como o mercado de trabalho é a última coisa que vai se recuperar, sempre.

A senhora deu exemplos, na palestra, de restaurantes apostando em diferenciação. Por exemplo, “abraçar” valores que os seus consumidores se identificam, como alimentação mais saudável, produtos orgânicos, vegetarianos, ou de origem certificada. Diria que é um caminho para quem quer empreender em alimentação, num cenário de consumidor gastando menos?
Sim, também. Vale na hora de se posicionar como uma marca capaz de oferecer para o consumidor aquilo que ele está valorizando. Um exemplo é a comida que ele entende ser gostosa – porque o consumidor não abre mão de indulgências. Mas também oferecer uma comida em cuja qualidade ele confia. E que foi executada com valores com os quais compartilha. Isso, sem dúvida, pode contribuir com um diferencial pra essas marcas no momento de se posicionar para um consumidor que ainda está comendo fora do lar, mesmo com orçamento mais restrito.

Diferenciais como comida com origem certificada, mais saudável, etc, já existem há algum tempo. Não pode ser uma moda, como paleta mexicana ou tantas outras? É uma tendência realmente para vários anos e várias classes sociais?
Sim, vemos isso como uma mudança sistêmica, e menos como um modismo. Mesmo para as classes de renda mais baixa. O que acontece é que como o orgânico sempre vai ser um produto mais caro – para o restaurante trabalhar com ele, por exemplo. E para esses consumidores de classe mais baixa, a gente espera que a penetração chegue mais tarde, mais no longo prazo.

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